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quinta-feira, 7 de abril de 2011

Helano, meu bem


Contenha-se Helano, contenha-se! Explicar o mundo? Desvendar Proust? E Deus em átomos? (a propósito acordei de novo hoje pensando se Deus não existia mesmo). Explique-me antes seu último verso, confuso não, significados é de que preciso e que sem eles não poderei qualifica-lo. Explica-me benzinho tua limitação antes. É limite Helano. Há limites. E não me venha com a estapafúrdia explicação de que o limite está no corpo, não na mente. Tua capacidade já não explica tudo. Dorme queridinho. Amanhã tu terás de mim café com leite, pão de mel, língua, contato corporal, um cachorro barulhento (Ando com saudades de balbúrdia de cachorros desde que a minha morreu) e explicações a me dar. Que diabos significa seu último verso? E sim, finalizas amanhã as tuas últimas linhas do artigo, a revista esta quase pronta! O Florius me exigiu cobrar de ti! Porque és arredio, e só comigo és doce. Penso que o Florius seja o nosso limite. Como alcança-lo? Isso não desvendas não é seu metidinho de merda.

Um beijo doce,

Sua Laura.


PS: Queria morar numa dessas! Biblioteca de Sendai, destruída pelo tsuname de 2011, segundo alguns relatos a cidade está coberta por água.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Do Helano


Queridinha

Escrevo para consolar sua preocupações, que são tantas, não por desejar falar com alguém, e também porque estou preocupado com você. Suas cartas andam revelando tanta decepção, tanta tristeza, andam magoando você queridinha? Você vai me responder que não, que ninguém pode magoar o outro sem que a própria pessoa deixe. Sabe Laura, você deveria deixar de ser essa partícula se de indeterminação, de ao verbo um sujeito! E dê a ele a merecida culpa. Mas você não há de fazer isso, que tolo é o meu conselho, eu conheço muito bem você, sua elegância de carater, a dignidade assumida por você diante das situações adversas e a inacreditável nobreza de seu coração. Você chorou não foi? Eu pressenti.

Eu poderia dizer a você minha querida, cabeçuda e teimosa Laura, que protegesse seu coração, mas você não me escutaria não é? Não sei ainda a sua mania de perdoar tudo. E sua detestável mania de se achar forte o suficiente, capaz o suficiente de suportar todas as dores do mundo. As vezes minha querida, a gente não deve perdoar, esquecer sim, e acredite perdoar e esquecer não estão interlgados, quem o diz é poeta, ou é cristão, são todos tolos minha querida, todos tolos.

O Florius me escreveu, não está gostando de seus textos, você também não, nem eu. Está lhe faltando alma, e sem alma seus textos não passam vida, eles não pulsam. Para onde está canalizando suas emoções minha branca? Rio anda seco no sertão a fora. E o florius que não volta? E o nino que sumiu? E Sofis? Onde anda sofis? Parafraseando o Vinicius, a vida é arte do encontro, embora, haja tanto desencontro pela vida.

Minha pororoquinha branca, é você é uma pororoca que adentra impetuosa pela vida, arrastando velhas opiniões, verdades construídas, destruindo beleza, revirando o mundo dos outros sem fazer silêncio, você assusta queridinha toda a sobriedade de um mundo real inventado. Engraçado é teres encontrado um outro par. É impressionante. Mas pororoca não é o encontro de dois rios?

Mas vamos falar de mim, enfastiei-me de ver-te sofrer. Vou fazer-te rir de meu desespero. Hoje me dei conta da idade que tenho. E o que tenho eu? Um apartamento sem mobília, sabes que ainda me cortaram a luz ? Minha ex-mulher, a Tereza Arcadievna (como se me fosse permitido ter outra esposa) me odeia e seu maior desejo é me ver na cadeia. Um filho que descobri que não é meu. Todos os bolsos da roupa vazios, não tenho um centavo pra pagar a puta mais barata do mercado. E por ironia eu ainda sou um filho da puta. E a única coisa que espera é a morte. Ninguém se importa comigo, a não ser você minha amiguinha. Eu Estou odiando a minha vida! E sabe o que acho dessa vida desprezível? Vou deixar de ser escritor, deixar de escrever romances épicos e canalizar meu talento- se é que tenho algum- para algo que pague a porra de minha conta. Parece minha flor, que só existe dor e desespero aguardando por nós na próxima esquina, especialmente por mim., porque se há Deus, queridinha, ele me odeia. Mas tanto melhor, que a recíproca torna-se verdadeira. Sou o escritor mais desafortunado dessa vida, escrevi quatro longos romances desde 2008 e nenhum deles foi aceito. E então queidinha, mato-me antes ou depois desse espasmo proustiano carregado em benzendrina?

Minha pororoquinha branca queria você aqui, tomar café com rosquinha no café colombo, como nos tempos antigos. Ter a segurança dos seus abraços e seus olhos a me amar.

Perdoe-me o desabafo, e a preocupação que estou te dando, é porque queridinha, eu também não ando muito satisfeito com o rumo das coisas. Escreve-me uma poesia sim? Ou qualquer coisa que me deixe feliz. Salve-me dessa saudade sem socorro.

Ps: Gostod e saber que você ainda se recusa a admitir que amar é sofrer.



Amo-te,
Teu sempre e insatisfeito amigo
Helano



PS: Degas. Ao som de Luz antiga, Ana Canãs.

domingo, 20 de junho de 2010

Querido Florius



Meu caríssimo amigo, desculpe a ausência. A falta de presença. A total displicência. Desculpe-me querido pelo imenso exercício de egoísmo que tenho demonstrado. Há mais de um mês venho pensando demais em mim, demasiadamente em mim. Diante de tanta indiferença aos outros, não tive tempo de te escrever como merecias. Mas ao menos posso confortar-te e revelar que tenho lido teus textos. Os novos e os antigos. E como sempre, andam me causando um rebuliço na alma. Principalmente um que tanto lembrou-me Proust. A sua imensa busca por algo que já se passou. O que me levou a antigas lembranças do sítio. No fim da tarde o café bulindo na chaleira, o fogo de lenha crepitando. Sem nem saber por que me lembrei daquela música: aí que saudade que eu tenho, das noites de são João... Sei lá. São reminiscências apenas... Fico andando pela casa pensando em retribuir com algumas palavras suas inquietações tão minhas. Fico do quarto para o terraço, conjecturando a grande resposta que aliviará nossos ânimos e satisfará nossos anseios. Porque tanto vazio Florius? O que está acontecendo a nós? E se eu der uma resposta será que ela ajustaria meus interesses a orbita do que eu tenho feito nos últimos dias. A esse nosso grande propósito. A literatura. Às vezes Florius querido, eu me sinto morta. Nada parece realmente valer a pena. Que literatura, querido, eu estou buscando fazer? Tudo me parece tão vazio. Nada parece valer todo o meu esforço, toda a minha abdicação. Nessas horas Florius, meu bem, sinto uma vontade imensa de fumar. Afeta-me sobremaneira a minha covardia diante das ousadias da vida. Sim, meu querido, porque fumar ainda é pra mim algo muito ousado. Ria-se vá! Eu sei que mesmo se eu não assentir você o faria. E deve ainda pensar, está cá não nega ser de Bonança! Tenho até meu caro, evitado o álcool. Sim, pasme! Mas é por motivos de saúde. Olhe querido, nem vou perder tempo te contado como fui mal de saúde esses dias, é desnecessário. Mas confesso-te apenas, como sofri!

A muito que não vou ao café, nem com Sofis, nem com o Helano. Veja você, eu estar evitando o café, parece algo muito inusitado. A mim que sempre interessou essa atmosfera encantadora dos cafés que freqüentávamos nós todos, revezávamos para que nossos espíritos conturbados e enfurecidos não se chocassem com o gênio do outro. Éramos um grupo e tanto.

Florius ando péssima. Não consigo mais escrever. Ando triste. Sem inspiração alguma. E minha moral anda assim mole como traço de boca de velho. Parece falecida. Dramaticamente afetada com um infarto de não ideias. Estou blasé, meu amigo. Não há elegância nisso Florius, pelo contrário. Isso é paralisia querido, paralisia de sentidos, padeço de atenção. A quietude dos quadros de Johannes Vermeer. A mesma luz plácida me banha. E nada anda acontecendo que me inspire. Quero fazer literatura Florius, ou vou morrer... Talvez seja prenuncio de alguma revolução, mas Florius, eu preciso de dias de desassossego.

Você busca algo, como o Proust. E eu não consigo nem sair a busca Florius querido. Ando fazendo tão pouca literatura. E o que venho fazendo é tão falido e mal. É lixo. Grandíssimo lixo. Ando me perguntando se realmente é mister escrever. Sou uma escritora Florius? Ou ando presa ao cárcere da arte literária? Eu sou uma inutilidade e a minha literatura de nada tem me valido. Tem? Minto Florius? Ela que se vale de mim. Ela que anda sugando os meus grandes dias. Ela que anda me atormentando. E o pior, é que sei que estou atada a ela como um bêbado ao álcool. Ela é que se vale de mim, a literatura, a ponto de tornar-me assim ridícula diante de ti. Florius, estou em desespero. Perdi minha inspiração. É como se perdesse meus sentimentos.

Mas que tola! Pra que estou a te dizer tudo isso? Desabafo, talvez. Mas talvez eu esteja sim desesperada por que estou vendo você fazer grande literatura enquanto eu ando parada na esquina da solidão. A literatura está me matando Florius. Ela vai me matar. E eu só queria as respostas para as minhas inquietações.

Mas deixemo-nos disso. Vamos ao domingo. Ele hoje é de sol.

Perdoe-me o humor (a falta dele), mas é que ando azeda, meu querido. Precisava de você aqui.

Sua amiga sempre amiga,

Laura da Hora

Ps: Moça lendo uma carta, 1657. Johannes Vermeer Van Delft pintor Holandês. Repare na Luz utilizada pelo pintor para recriar toda a atmosfera. O incrível de Vermeer é que essa janela e sua luz rendeu grandes pinturas para ele. Uma das mais importantes é moça com brinco de pérola.

sábado, 8 de maio de 2010

A carta, o leitor e a margaridinha.


Querida, fiquei muito triste, imensamente triste por saber de sua tristeza, distante, vazia e sem fundamento. Porque às vezes você possuía a arte de dissimular tão lindamente. E sorri como quem nunca chorou, ou como quem jamais passou por entre uma nuvem cinzenta. E quando balançava o cabelo esvoaçante dava a impressão de quem lança flores ao mundo. Sabe querida, eu olhava pra você buscando só-um-pouquinho-de-sol. Que estranha impressão causou-me teu texto ultimo. Por quem anda marejando seus olhos de imensidão? E por quem procura suas mãos brancas em noites de insônia? E seus melhores textos, quem te inspira? Sabe querida, desejava saber por ti por quem teus joelhos dobram de desejo, teus olhos brilham de luz feliz, teus sonhos ganham a imensidão (você e sua sede de imensidão) como se fossem invisíveis barquinhos de vento. Sabe querida, você deve estar inundando as ruas de pedra da sua cidadezinha poética com seus olhos cegos de lágrimas. Eu fiquei pensando... E ontem te olhando... Acho que eu descobri o seu segredo.

PS: Era uma história estranha, que eu sempre quis decifrar. Mas hoje conto sem pensar. Que explicação que eu sei que se não há, sobra luz nesse caos de paixões. (Oswaldo Montenegro)

PS: A margarida é sua, leva-a contigo.


Fique bem,

Gabriel Anievas


PS: Melancolia, de Edgar Degas, porque me faz falta a sua ausência longa.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Montparnasse, 5 de março


Laura minha adorada correligionária das coisas encantadoras de Bonança. Bom dia. A tarde já caí lá fora. Os rumores do pôr-do-sol magnífico se acalma lentamente. Aqui no meu apartamento, tão vazio de alegria, na frieza da rue Notre Dame des Champs, Montparnasse, o Lar da Boémia e o coração cultural da frança do Nino, eu cismo sozinho. Cismo e ao meu pensamento só vem de leve pousar como uma andorinha no fio elétrico a recordação dessa minha amiga. Das nossas doces lembranças de amizade. Lembro-me assim de ti. Numa tarde assim, deu um gosto de sossego e alegria no meu coração. Das lembranças de amizade. Como vão vocês aí, agora com a nossa Sofis de volta? Imagino deste jeito, você lendo e estudando muito sobre arte pós-moderna, outras vezes retocando com lirismo o seu livro de poesia. O Helano escrevendo contos em alguma mesa de bar. Sofis pintando margaridas adoráveis. Algumas noites farras. Todas as noites farras. Que bom que estão vocês três juntos de novo. Já arranjaram tudo para Sofis não é? Não se esqueçam de andar sempre na camaradagem. Não gosto de briguinhas, gosto de sossego, de andar de braços dados pelas pontes do Recife, com os dentes bem arreganhados num sorriso.
Querida, mostre essa carta para o Helano pra ele aprender como se faz cartas. Ele não escreve nada, não fala nada de interessante, só faz literatura. Só sei dele por você. A propósito, Como foi a noite Nômade do Helano? O Helano. Ah o Helano! Estou apostando que está se perguntando como eu sei disso. O nino meu anjo, soube por ele que soube por você.
Estou bestando numa vida antiminha. Sem lirismo nem prosaísmo, só trabalho por dinheiro. Mas deixa só abril chegar pra você ver se eu não volto a fazer literatura.
Querida vê se voltas a me escrever, com essas já são seis cartas que te mando sem respostas. Aposto que as do Nino respondes sempre. Ao menos sei que quando chegas em casa encontras na tua mesinha de trabalho um ramalhete perfumado de cartas minhas. Espremendo bem deve dá a essência dessa amizade que não se apaga.

Um abraço comovido,
Teu amigo
Florius.


PS: A ponte, de Monet.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Recife, fevereiro de 2010


Querida Laura,

Cheguei de viagem esta quinta. Enquanto dava um jeito no meu velho estúdio de pintura, que a propósito continua na mesma rua, da união, quase ao lado da casa de Manuel Bandeira, encontrei uma velha fotografia do nosso grupo dos cinco, igual aqueles lá do modernismo. Lembrança ingênua essa do “grupo dos cinco” da qual não pude jamais esquecer, mesmo distante, traçando outras linhas claras pro meu caminho. Mas me bateu uma saudade que dilacera. Essa foto é daquele dia em que o Renato Russo morreu e nosso grupinho ficou escutando durante o dia todo músicas da Legião na sua casa. O Helano chorou, disse que foi a primeira vez na vida. Belo mentiroso esse garoto! O Nino chorou, mas tentou disfarçar, porque você estava olhando e ele queria te impressionar. Não acredito que vocês ainda se amem! E o Florius tava chapado. Parecia um louco, pulando e chorando ao mesmo tempo. Nunca vi o Florius assim, descontrolado.

Laurinha, li sempre seus textos e algumas de suas criticas de arte, estão fabulosas! E a literatura? O Florius numa carta recente disse-me que você é capaz de emudecê-lo, e às vezes de irritá-lo até a tormenta, mas penso que isso não seja demérito. Soube pelo Nino que o jasmineiro laranja ainda floresce, fiquei feliz.

Depois da foto, escutei Legião Urbana. Tola sentimental é isso que sou, mas é porque desejei sentir a mesma emoção de saber-nos assim tão ligados. Éramos um grupo de invejar. Um por todos, todos por um. Não acredito que tenha sido há tanto tempo atrás. Hoje em dia como é que se diz eu te amo?” Lembra que eu disse isto antes de viajar? Você me respondeu, vamos fazer um filme,parafraseando o Renato. E hoje Laura, como se diz eu te amo?

Eu penso que aprendi. O fim do mundo passou já, querida, no meio de uma depressão. É difícil ser sozinha. E ainda é difícil imaginar a minha vida aqui. Preciso de sua franqueza. Necessidade de te ver.

Tantas saudades! Helano, Nino, Florius, Laura e eu.

Sofia Bianchi

PS. Encontro as cinco, sábado, café da Fundação.



PS1: Pereja, Xul Solar. O conjunto da obra de Xul Solar é um claro reflexo da necessidade de expurgar assombrações particulares, aflições existenciais; o seu mal estar com a vida visava estruturar fora de si um espelho para seu temperamento melancólico e nervoso, projetando um imaginário totalmente divorciado do desejo de uma proposta plástica, de uma afirmação estética ou de uma transformação visual. A arte de Xul não se enquadra nem em um estilo nem em uma estética. É como se fosse a obra de um perturbado mental, mas um artista, grande artista.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Bonança, Janeiro de 2010



Meu Querido Florius,


Fecho nesse instante o precioso livro que me remeteste, Grandes Esperanças é impressionante. Há muitos anos não leio um livro que tenha produzido efeito tão estimulante ao meu coração. Quando te digo anos, é porque nessa tarde pensei realmente em tudo o que tenho lido e na sensação incrível que senti a cada página que virava. Dickens é encantador! Juvenil, confesso, e me dá tal idéia de frescor que não posso imaginar que os meus catorze anos não conheceram Dickens. Em diversos momentos me senti na frescura dos meus 14 anos quando li olhai os lírios do campos, sim Florius querido, há em Grandes Esperanças essa doçura triste do livro do Veríssimo. Tenho-te tantos comentários a fazer sobre ele, penso que isso requer uma visita, regada um bom café e a broa de milho, acompanha-me qualquer dia desses? Espero-te ansiosamente.


Sabe meu querido Florius, quando lia Dickens senti uma vontade férrea e inabalável em escrever o meu livro, que anda largado à própria sorte. São inspirações Florius, inspirações! Faltam-me as vezes, e mesmo tu sabes que só quando estiver bem velha é que hei de publicar o meu estimado livro, que é quase um filho de tão apegado a ele que sou, então retardo os dias que chegará o momento de mostrar aos outros olhos não tão condescendentes como os teus.


A Estela de Dickens tem sim um pouco da minha Estela, mas a minha é tão viva, tão jovial que a considero singular. Tenho pensado na minha Estela e no que você me disse certa vez ser ela um reflexo fiel e minucioso meu e por isso não ter eu sobre ela total conhecimento. Considero-a tão cheia de nuances, tão inconstante, como o vento, como o tempo, como a arte.


E isso me lembra dizer-te meu querido,que encontrei soluções satisfatórias sobre o meu livro. Refiro-me ao incomodo que Augusto representava para mim, sim, meu querido, solucionei da melhor forma possível! Exclui esse personagem da história. Apesar da sua personalidade está bem construída, tenho a ele completa aversão. Odeio Augusto e não posso conceber a idéia de que a minha Estela poderia um dia amá-lo. Estou muito feliz com essa decisão, espero que tu fiques também. Diante disso nosso querido Frederico toma novas e maiores proporções. Meta de janeiro? Construir Inês!


E como são lindos os gerânios que você me remeteu! Que encanto de flores! Você percebeu as cruzinhas brancas no escarlate de suas pétalas? Onde encontrou gerânios por aqui? E são tão mimosinhos! E sobretudo, caros! Não deveria ter se dado a esse luxo, prefiro flores mais baratas, já que você deseja continuar a mimosear minha amizade, que já é sempre sua. Quanto aos brincos de princesa, sim, são florzinhas difíceis de encontrar por cá. As lanterninhas japonesas são mais bonitas com sua cor de entardecer.


Querido Florius, vou ficando por aqui, digo-te antes que hoje me sai uma bela dona de casa, confesso que teria talento se não considerasse os deveres do lar tão embrutecedores! Não ria! Fiz bolo, mas como não saiu da fôrma de forma a apresentar a ti, não te envio ele. Hoje estou particularmente feliz! E sim, ontem a moça da padaria sorriu pra mim! E tu que juravas que ela não sorria porque não tinha dentes! És um bobo! Deixo-te com um carinhoso beijo e um sorriso no rosto, que eu sei.


Sua sempre amiga,

Laura


PS: Autumn in Bavaria. Wassily Kandinsky, o pioneiro do abstracionismo nas Artes Plásticas, nasceu na cidade de Moscou, em 16 de dezembro de 1866. Filho de pais divorciados, ele foi educado pela tia, optando a princípio pela música, que posteriormente refletirá em seu trabalho como pintor, pois ela lhe confere noções essenciais de harmonia e evolução. Kandinsky seguiu inicialmente as trilhas acadêmicas, formou-se em Direito e Economia na Universidade de Moscou, mas logo depois desistiu desta profissão, encontrando finalmente seu destino nas veredas das artes visuais, ao se apaixonar por uma tela de Monet.

Kandinsky tirou da arte a sua obrigatoriedade de representação da realidade, inaugurando o ciclo abstracionista com sua primeira aquarela abstrata (1910). Alguns artistas já haviam feito experimentos com a dissolução de imagens, mas Kandinsky foi o mais consistente e lógico na busca de um modo de expressão não figurativa. A obra acima não expressa sua fase abstrata, ela é mais voltada a sua fase figurativa do início da sua carreira, de cores quentes, que de certa forma remete-nos a uma arte mais fauvista.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Cartas a uma jovem escritora


Para Laura


Semana passada fiquei feliz, feliz a não caber em mim. Enfim, a moça respondeu a minha carta. E esperei bastante por ela, digo até ansiosamente! Mas compreendo que os misteres de escritorazinha tenham tomado conta da sua vida nos últimos dias, eu muito a felicito, pois sei como é estar em dias de inspiração.


Sabe minha querida, sobre a sua sede de vida e essa sua constante e eterna angustia em abraçar o mundo, pôr no colo e embalá-la como se ele fosse uma eterna criança, bem minha flor, ela jamais há de passar. Mas penso que você se sairá bem ao usá-la para o que você escreve.


A propósito, tenho lido muitas coisas que você já escreveu, e confesso que algumas eu não venho gostando. Não se zangue comigo, sei que é competitiva e perfeccionista e que não suporta errar, mas preciso lhe contar minha opinião. Laura, minha querida, a alguns de seus textos que você me remeteu falta alma. Aquele texto mais minimalista e sensível que você me enviou, falta um tanto de serenidade, e talvez por isso mesmo que você disse-me que eles estavam vazios, lembra-se? Também não gostei dele, e digo mais, sabe o que me pareceu? Fato curioso, não parece que você escreveu como se ele viesse de dentro, ao contrário, pareceu-me superficial. No outro texto, aquele mais realista, digo até mais denso, a esse careceu profundidade psicológica, profundidade esta que eu encontrei no primeiro capítulo de A Reunião dos Nossos. E que tanto me fez vibrar, Laura, não pense que você perdeu a sua veia literária, porque o seu blog está de prova que não, mas acredito que você deva se concentrar mais no que dizem seus sentimentos, porque sei que a senhora possui bastante sensatez e discernimento critico para saber o que realmente está bom. O capitulo três parece-me de fato exagerado, mas a sua Estela esta tão adorável que não posso conceber erros nele, mas se você não gosta dele, mude o que achar ser necessário.


Quanto ao seu coração, minha querida, parece que a senhora anda com ares de covarde, anda bebendo chá de gengibre com limão sem gostar. Depara-se com um sentimento e corre dele com medo. De sofrer? De ser feliz sem ser só? Ou de sofrer de novo por amar de mais? Moça a senhora não é de cristal, se não quebra, pra quê evitar o amor? De quantos já fugistes? Dos que eu sei, perdi as contas! Isso é lá bom? Ma petit ami, não foi a senhora que andou escrevendo desejar sentir tudo de todas as maneiras? Pois agora anda escrevendo as coisas sem as sentir? Isso não vai lá bem.


Mandei Dickens para você ler, sei que não aprecia em demasia os escritores ingleses, mas há entre eles alguns muito bons, como Wilde. Esse mesmo você leu e reconheceu o talento inigualável. Quanto a Grandes Esperanças, espero que aprecie a eloqüência irônica, o realismo amável e sorridente desse velho e talentoso inglês, Dickens e que aparte-se um pouco dos russos, e sua literatura sombria e negativa, que não lhe faz bem, são muito depressivos!

Minha querida, já que você exprime o desejo de conhecer melhor o Gógol, e de saber os pormenores de sua literatura, embora eu não concorde com essa sua persistência com os russos, e eu penso que você é muito teimosa a esse respeito, ainda assim, te enviarei um. O capote, claramente não é o melhor livro dele, mas é excelente e por isso indico que você comece por ele. Mas antes, leia com entusiasmo Dickens, ame pipi e Estela. Sim, lembrei-me de sua Estela dia desses, bela construção de personagem, e ainda a considero melhor que o Raul, embora você discorde veementemente.



Quanto aos mimos, não reclame, enviou-os quando bem entender, sei que você aprecia pequenas delicadezas, e eu desejo agradá-la sempre que me for possível.


PS: Espero que goste dos gerânios, em substituição aos brincos de princesa que não encontrei no mercado.


Seu amigo,

Florius



PS: Um Picasso para começar o ano.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Cartas a um velho amigo


Para Florius


O meu mundo não é igual ao dos outros, eu sei que você diz que o seu também não é... Mas o meu, meu bom amigo, é confuso demais; quero demais, exijo demais; eu tenho sede de vida, sede de infinito, sede de imensidão. Há uma angústia constante que eu não compreendo, sabes que na minha vida nada falta e o que falta sempre chega a mim de uma forma ou de outra, vê estou longe de ser pessimista; sou uma exagerada, exaltada, de alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que deseja o mundo de todas as formas e maneiras. E que tem saudades pequenas, que doem feito beliscão. Tem saudades e não sabe de quê.


PS: Saboriei e fiz bom proveito dos bolinhos que me enviastes, mas lhe imploro, não gaste tanto dinheiro comigo. sei que gostas de mim, mas o senhor não é rico. Apesar de tudo me levantei alegre.


tua amiga


Laura da Hora



PS: Frank Weston Benton.