Ora Viva! A poesia voltou a ter a atenção que merecia. As tardes em preto e branco num abraço apertado, Como a solidão e o sol se pôr no fim do dia Eu vou ver As noites de filmes trágicos. Amores Trágicos. Viva a poesia! A poesia adormecida Em toda a sua ausência, E toda a sua presença Forçando um sentimento Abrigado nos versos Que não te escrevo.
Os olhos miúdos de Estela esvaiam-se em lagrimas arrependidas. Lágrimas involuntárias. Um perfume barato no travesseiro, um cigarro no cinzeiro. Uma noite promiscua, uma pose vulgar...
Se você pudesse escolher, preferiria sexo selvagem com um desconhecido, ou com o amor da sua vida?
Estela pensava nas conversas que tivera com ele na noite passado, sentados no tapete alérgico da sala de estar. Os olhos deles me seduziam... Olhos negros ausentes, ausente de amar pessoa ausente, não eu. Os diálogos partidos chegavam agora na sua lembrança. Viagem ao Peru, roubar um beijo da Scarlet Jonansson... E ela sorria, dizendo que desejava mesmo era um beijo do cabeludo da sala...
Um sorriso, um convite, uma alça da blusa que cai...
Ele foi embora, no dia seguinte, sem deixar vestígios. Mas deixou a alma imunda, sua alma imunda. Envergonhada do seu vexame carnal...
Ele deixou um café pronto e uma culpa que nem te conto... Era o agradecimento da entrega imperfeita...
E se ela tivesse se mostrado ingênua? Dito que sabia inglês e francês. Que gosta de literatura, e chora com Camões... Que toca piano e violão, mas se arrisca no apito também. E se ela contasse que sabe cozinhar bem. Que faz musse de limão e pudim de leite com perfeição? E se ela tivesse dito que conhece de política, já leu Maquiavel, domina a economia, estudo arte e deseja ser diplomata. Que se veste bem, mas às vezes se cansa e quer deixar de ser chic. É uma garota de família, que ama os pais... Gosta de velhinhos fofos e adora crianças, gatos e cachorros.
E se ela lhe tivesse desvendado todas as suas habilidades. Todos os seus talentos... Será que ainda assim, faria nascer um romance?
E se ela não trocasse o seu valor, o seu brio, o seu orgulho e sua vaidade por uma noite de prazer inútil... Será que ainda assim ela teria um romance?
Lá fora corre um vento gelado... O café é quente e aquece...
Eu estava ainda deitada, cansada de mim mesma. Meu coração tá cinza nino. É uma tristeza estranha que às vezes me acomete assim, de repente. A vida está tomando proporções de sonhos desfeitos... e eu nem sei porque...
Acordei com a sensação de ressaca. O dia estava de ressaca, meu bem.
Quando escutei o cachorro latir, sai pra pegar a tua carta...
Olha nino, eu cheirei tua carta com devoção, como se nela contivesse qualquer perfume daqueles dias...
Tinha cheiro de sol e brisa leve.
Cheiro de felicidade...
Espiei o vento forte que fazia e aconcheguei tua carta nos meus seios pra que ele não roubasse o teu cheiro de mim.
A minha rua estava como sempre poética.
A vizinha aguava as suas roseiras.
Enquanto seu Brito passeava com os cachorros assoviando o bolero de Gardel.
A minha vizinhança é assim tão bela quanto às roseiras de Rita.
Corri para ler a sua carta, mais parei...
Não queria lê-la com avidez, como escutar musica sem senti-las. Por que é preciso sentir, nino, sentir tudo e de todas as maneiras possíveis.
Inventei obstáculos...
Pra evitar que você chegasse e me abandonasse tão rápido...
Fiz o café e misturei ao leite...
Voltei a cama, porque te desejei nela a noite toda...
Estávamos então só eu e tu.
Num aconchego de marido.
Abri o envelope e desdobrei a carta...
Mas não a li,
Antes passeei meus olhos por entre as tuas linhas perfeitas, tuas letras simétricas.
Li o teu inicio, e imaginei você me chamando de meu bem, como só você sabe falar...
Evitei te ter por inteiro, e parei, pra respirar e sentir você me chamar de meu bem...
Juro que escutei você da cozinha me chamando.
Pensei ser você, é um costume bem bobo, esse meu de escutar tu me chamar as vezes, no meio da minha solidão de poeta...
Voltei a ler-te com demência...
Chorei lágrimas indispostas...
Penso que por mais que as saudades sejam tamanhas, e ainda que sejam de fato, é bom que você tenha em mente e no coração o seguinte: eu, Laura, sou a sua menina viu...
Ninguém além de você, me tem com tanta certeza e devoção.
E peço-te que agüente as distancias, que não são poucas, mas meu bem bem querido é para o nosso bem ser construído.
A nossa casinha em Marambaia, a nossa viagem de mochila, o curso de fotografia e nossas marias...
Vê meu bem bem querido, somos amados pelas letras das nossas poesias, que bem há melhor nisso?
Que forma mais saudável de vivermos essa saudade...
E quando eu velhinha mostrar aos netos do nosso amor tuas cartas, haverão de dizer: que paixão imenso o dos nossos avós...
Paixão de outra vida né nino?
Tudo caminha hoje claro nino aqui.
E branco também...
Mas tem chovido tanto.
Ontem havia um rapaz na calçada da nossa rua tocando violão e um outro cantando a nossa música,,,
A valsa brasileira...
Preciso de você aqui pra mostrar as coisas belas que eu vejo.
Encerro aqui o nosso colóquio amoroso, aninhando-me às tuas palavras afagos.
Hoje é frio nino, mas amanhã melhora. Que as reticências te transmitam tudo o que não traduzi em palavras.
Sabe aquela terrível sensação de sol apagado sem brilho nem cor, é dia cinza, e, sobretudo, tem um vento frio e cortante que atordoa a gente ao sair na rua em dias assim. Pois, meu caro, não se assuste, mas ando vivendo em tempos assim. Vivendo com uma perturbação constante no pé do ouvido, num zunzum de vento rouco irritando-me sadicamente. De céu nublado... E confesso, há dias que penso que perderei o cerne do juízo. Nada parece mais inconveniente do que esse zumbido e esse aperto no coração de nulidade. Nulidade é o sentimento que consta aqui. E ele grita, grita no silencio de mim, querendo o silencio fora. Ele quer que eu me esconda do mundo. Que eu feche os olhos e o mundo passe sem passar eu antes por ele. Ele anseia me destruir...
PS : Puberty de Edvard Munch (nascido na Norúega 1863-1944) marcou o expressionismo, particularmente na Alemanha (onde viveu), e também a pintura européia do século XX. Em outro quadro, menos conhecido, reencontramos a mesma força de expressão, de cores e também de isolamento.
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Mãe Eu acho que comi um parafuso E ele tava dentro de um caramujo Porque o meu mundo anda tão confuso, Que um dia me abuso E jogo tudo no lixo. Queria só vê se não zangava! E parava de me atormentar logo, logo. É É isso. É. Não, não faria isso não... Mas confesso, quero um abraço mãe... Um abraço pra afogar de carinho, Que eu tô cansada, assim, de ser sozinho... Eu sinto falta de abraço, é isso... É. É isso. Mãe você me abraça? E você, abraça?
Repito novamente, tenho saudades de ti. Sabe que te escrevo aqui, sentada no banquinho, tão singelo, tão poético. O nosso velho banquinho azul em frente ao laguinho. Choveu muito hoje e o dia ainda assim esta quente. Nem um vento vem acariciar-me, nenhum vento trouxe-me um beijo teu. Olha nino estou com medo. Estou com medo. Medo do futuro, medo do escuro. Medo da solidão. Mas talvez a solidão seja boa... A solidão é boa nino, embora você nunca acredite em mim.
Tenho medo que as minhas inspirações fujam...que cessem de repente. São as minhas melhores inspirações. Gosto, hoje do que escrevo. Pergunta-me se eu amo? Confesso, querido, não sei se é amor. Confesso também, que nem sei se quero me perder de amor. Eu tenho medo do velho sonho de amor inteiro me aplacar. Tenho medo de amar tanto e esquecer que sou poeta. Não ria nino, eu não brinco! E não me chame de Lily Braun, que não quero ser como ela! Tenho medo do passado visitar essa tua amiga aqui. Tenho medo do amor da sombra a essa poeta que desabrocha. Que só deseja o sol do sol de verdade. O brilho eterno e não o fugidio.
Amo-te sempre
Sua Laura
PS: Berthe Morisot, A woman at her toilette, 1875.