terça-feira, 15 de setembro de 2009

No divã...



É pra eu começar? Nem sei por onde... Pode ser pelo nome? Meu nome é Laura. Não sei dizer nada sobre mim porque as vezes nem sei quem eu sou. Mas sou diferente das outras mulheres. Não sou chorona, não sou dramática, e não me considero vítima de nada. E também, não gosto da cor rosa e nem de ganhar rosas (Pura falta de criatividade masculina!). Sou mandona, egoísta e teimosa, logo, penso como homem, sou prática como um homem. Sou de uma elegante feminilidade, assim, andando pela rua com tanta graciosidade não há quem não pense que eu não seja tão igual as outras. Eu gosto de lírios!

Tenho cérebro masculino, mas coração de mulher. Sou estrategista, mas choro quando leio Camões. Fico com as pernas trêmulas quando me convidam pra sair. Diante de um homem inteligente, eu falo tudo ao contrário do que penso, mas se eu beber um pouco fortaleço as minhas convicções. E se ele brincar nas minhas orelhas? Eu perco o prumo. E se ele disser que me ama? Se ele disser que me ama... Eu não acredito!

Será que eu sou promíscua? Ou vivo num eterno desalinho e inconstância que eu ainda não aceito que vivo. Eu sou tão metódica!

Então doutora Ana, quando terei alta?



PS: Nudez feminina reclinada no divã. Eugène Delacroix. Louvre, Paris.




quinta-feira, 10 de setembro de 2009


Outra vez mais te revejo
E o coração salta-me ao peito, diante de ti.
Passaste e qualquer coisa tua
desprendeu-se e foi parar em mim,
Que de tão súbito,
Tão inesperado e inusitado
Causou-me uma angústia de mão grande apertando coração pequeno
Uma tristeza danada!
E eu chorei
Chorei por te rever ainda distante de mim.


Ps: Danae, Gustav Klimt. Ando ultimamente maravilhada com Klimt.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A cerimônia do adeus - A parte que não pertence a Beauvoir


Há coisas tristes que só nos acontecem emvida. Até porque em morte me foge todo o conhecimento dos acontecimentos e acredito que nenhum filósofo do quaternário os tenha encontrado de fato. Deparei-me com a morte duas vezes nesta semana, claro que uso de licença poética, pois, não me apareceu diante aquela figura bizarra do sétimo selo. E nem me chamou ele para de xadrez, o que seria muito estimulante. Há tempos que não me divirto com a arte que Duchamps mais apreciava.

Confesso que não sei lidar com despedidas, e que muitas vezes me perco pensando em que já se foi. Quando um personagem que não é o protagonista, mas que de certa forma tornou a história agradável em amiudados capítulos morre, deixa qualquer coisa de página rasgada, de poesia mal rimada. De uma coisa que foi e não poderia ter ido.

A morte não é uma coisa engraçada. Um vazio nunca mais preenchido, um abraço nunca mais recebido, nem um sorriso transmitido. O não ouvir de tua voz. As lembranças que não mais relembrarei ao teu lado. Meus caros, é uma dor que dilacera! E no entanto é inevitável. E que poder possui essa palavra; inevitável! A morte é inevitável.

Essa semana o meu mundo sofreu duas baixas. metade de mim é racional e pragmática, mas a outra metade é humana, logo, é toda incompletude. E ela sente, sente um infinito de coisas miúdas que acumula de repente no meu coração. Acho que é lágrima represada e sangra agora em palavras. Há dias venho cerrando os olhos amendoados pra não derramar lágrimas indistintas, mas chega o dia da desforra! Eis-me aqui tão humana. Tão sensivel. Tão mulher. Eu tenho medo! Medo da morte, medo de escuro! Assumo as minhas fraquezas e eis que estou desarmada, sem meu escudo racional capitalisticamente indiferente. Sabe o que eu estou pensando? Talvez um abraço agora valha mais que palavras de consolo. As palavras hoje são desassossego pro meu coração. E talvez, eu nem seja tão forte quanto eu havia pensado... Mãe, as mulheres grandes um dia desabam?



PS1: A morte e a vida, Klimt. Gustav Klimt é associado ao simbolismo, destacando-se dentro do movimento da Art Nouveau austriaca e um dos fundadores da Secessão em Viena, movimento que rompia com as tradições da arte acadêmica.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009


E no meio da noite
Quando o frio me alcançar
Teu corpo não estará aqui.
As tuas maõs, teus pélos, teus lábios
A me aquecerem.
Nada de teu corpo gentil!
De ti,
Somente as tuas meias brancas
Me esquentarão.
Sabes meu bem,
Elas perderam o par.
Um sonho de creme só
Uma caneca de café na solidão
A tua já quebrou...
Mesa é pra dois
Valsa pra dois
É par
Par que falta no meu altar
A gangorra é pra dois,
sem ti sou só.
Tu morreu querido e
Deixou desassossego
No quarto nosso de aconchego.
A filha do nosso amor chora por ti.
Recife chora ainda por ti.
Já não lês sentado ao meu lado
Crônicas sobre economia
Tantas conversas
descobertas.
Eramos nós
Jovens,
Espirituosos economistas.
Era você que dizia isso...
Eramos sonhos e futuros planejados
Eu que dizia isso...
Ainda ontem,
Escutei teu sorriso brando,
Senti teu perfume jovem
O fremir de teu andar elegante...
Corri ao quarto nosso pra te descobri aqui,
Não te encontrei...
Eu chorei querido,
Chorei de amor mais que pude.
Daquele amor que falta fala a saudade.
Tu,
Somente tu que não encontro mais em mim.
Eu que sou sempre tua.
Mas me perdoa se eu te aborreço
É a tarde, talvez assim, parada
Que me leva a pensar em ti.
Teu abandono tão suave como a água
A desprender do meu corpo.
Fazem somente dois meses querido...



PS1: Homenagem à Claudia Satie Hamazaki e à Marizan Mariano (In Memória). Dois economistas, dois professores, dois apaixonados que me fizeram amar ainda mais Economia. Fique bem Marizan onde você estiver.


PS2: Idylle, Renoir, porque só ele poderia traduzir em imagem o amor que unia meus professores.

domingo, 30 de agosto de 2009

Carta a um leitor que passa por mim...


Nem sei se ainda me visitas
Nem sei se ainda me lês
Se pensas em mim com eu em ti
Se ainda sou a tua gloriosa descoberta
Tu me exorcizaste.
LOgo eu,
Que feneci ante tuas cálidas palavras
E te descobri também
Ao me descobri nelas.
Que há nelas que me envolvem,
Que causa qualquer coisa que emudece
E as vezes entristece?
Lê meu bem
Foi pra ti que escrevi
Desnudas as minhas vestes
Descobre-me lua
Estrada quase tão tua
Vês que flutua pra ti essa palavras...
Tu que passas por mim,
Indiferente,
Displicente
Distraído.
Eu que te vejo com uma frequência constrangedora
Na sua timidez de poeta distante
Um sorriso,
Um aceno,
Não me cumprimentas, sabes.
E não se cansam de cruzar as tuas com as minhas
Estradas,
Olhares
Vagas
Que há que não me respondes?
És deselegante assim.
Eu ainda espero tua resposta
Se é que já não descobrisses sozinho isso.
E o acaso que te trouxe tão próximo,
Lado meu
De lado teu
Sombrinha pra frevo
é dois.
Duas vezes que cai.
Uma mesa ao lado da minha,
Olhaste-me e bem sei que me encontraste
Sabes que sou ainda aquela das palavras...
Que ainda sonho em viver um grande amor
Mesmo que não sejas tu.
Escrevo-o, muito embora, pra tu ler
Dignas a me dá respostas,
Que ainda as aguardo com ansiedade.
Mas te confesso - E é o meu maior receio
Que tu nunca leias as palavras que te escrevo aqui.
Que se perca entre tantas outras,
Sem achar a quem foi destinada.
Mas se não a leres
Ou se não desejares responder
E a isso não faças caso,
Saiba que aqui pois,
Será o sepulcro final
De meus desejos vãos.




PS: Danaide, Rodin. Inspirada numa mitologia grega, as danaides foram condenadas por hades a carregar água em baldes furados pela eternidade. É a representação do amor que se vai fugindo, se esvaindo, como um amor (des) sentido.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

No quarto escuro e abandonado, as memórias de Tereza


Meus caros, defendo-me sempre. Queria eu ter cego meus olhos para que os olhos de Helano não me envolvessem nessa prosaica insanidade. Quisera eu ter os lábio cortados para não te sentir a volúpia dos beijos teus. Larga de mim Helano! Desejo-te não menos que a morte cruel! Rezo para murchar-lhe toda a fremente vida.

Eu vos digo, Helano foi o meu elo com o inferno. A minha perdição. Será a de quem mais amar Helano. Não se ama Helano, se venera, e essa veneração é quase um vício incurável. Basta! Não continuem lendo as minhas mémorias, essas que de tão desprezivel e ignóbil deveriam ser lançadas a mais merecida indiferença, serem queimadas ou lançadas ao lixo. Pouco importam-me, só não desejaria que caissem em tuas mãos, leitor fiel.

Silêncio. Deixe as mémorias minhas quietas antes que teu coração cerre-se de inquietude... Eu não pude fugir a Helano... Não pude eu fugir à sua carne, nem a sua memória, Helano está em mim. Nada permanece na paz do bem. Helano não sai de mim... Nada permanece em mim, só Helano. Só eu, louca e insana, permaneço parada dentro de um tempo...

Gaiola é para pássaro que perde a sua essência: o vôo.

E o tempo vai passado, passando, passando...
PS: Uma das mais belas esculturas de Camille Claudel, Sakountala (o abandono). Camille foi a aluna mais talentosa de Rodin, e essa escultura, a sua primeira dramática, foi inspirada, segundo a sua biografia, numa traição de Rodin. É uma cena terna entre dois amantes, em que o marido pede perdão a esposa por seu abandono e esquecimento. Rodin abandona Camille louca de amor anos depois dessa escultura ficar pronta.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Recado da menininha do poeta


Lá na minha casa em Bonança
Tem uma figueira prateada
E um jasmim laranja,
Se floresce,
Perfuma o ar do meu quarto.
E da janela aberta
O sol se vai
Manchando o céu de nuances avermelhadas.
Vejo o abrôlhos tímido das estrelas.
Seis
A badalada da Ave Maria.
Lembro de você dizendo que eu era a sua avemariazinha.
Meu violão anda mudo de saudades de ti,
Que não chega.
Tão real e evocativo ao me abraçar.
Meu Deus, eu queria brincar com ele!
Fazer comidinha, jogar xadrez.
Ele diz que casa comigo
E vem morar em Bonança.
Viver um amor prosaico.
Mas eu não acredito!
Meu benzinho adorado
Vê se não demora a me encontrar,
Que sinto saudades de ti!
E quando chega a noite eu fico tão triste que dá pena de mim.
Ao menos me visita ingrato!
Faço café e sonho de creme,
Aí a gente lancha no balanço de baixo da figueira
Vê o sol se por,
O jasmim florir
Nessa minha casinha em Bonança,
Que é tua também.
Boa noite
E dorme pensando
Nessa que só pensa em ti.



PS: Picasso, O sonho, 1932. Retrato de sua então amante Marie Thérèse Walter.