quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

2010


Previsões óbvias para 2010. A propósito, 2010 não lhes parece um ano repleto de obviedades? O que parece obvio senhores? Direi-vos sem ironia. Madonna rompera definitivamente com Jesus Luz, o que vá lá, meus caros, não há nada de novo, nem de interessante. Nem nele nem no relacionamento! O Greenpeace, considerando a esterilidade de muito de seus atos, continuará brigando incansavelmente contra o aquecimento global, que a bem lembrar não diminuirá. Mas não se desesperem, talvez o aquecimento global faça parte de uma rede de teorias da conspiração, e na verdade ele nem exista. Vá saber! Sobre o mercado de Carbono? É piada? Posso rir? As revistas de fofoca continuarão dizendo que Jennifer Aniston, ex de Brad Pitt ainda não arrumou outro marido porque curti uma dorzinha de cotovelo. Gente tem dó! Xuxa continuará afirmando que viu Duendes! Dilma Roussef ganhará no segundo turno, depois de um grande escândalo de corrupção denunciado pela oposição. Surgirá, então, um marketeiro de talento pra limpar as folhas secas do terreiro. E enfim o Brasil terá uma mulher na presidência, não que isso vá fazer muita diferença. Mas já é um motivo a mais para as feministas de plantão orgulhar-se de suas grandes conquistas (Eu continuo não sendo irônica). O Santa Cruz enfim voltará pra uma divisão de fato, assim ansiosamente espero e torço. A Lady Gaga confirmará minhas suspeitas, existe vida extraterrestre. O povo brasileiro continuará moldado num formato pausterizado sob a conduta de “vamos festejar o ano da copa” pra esquecer suas mazelas políticas e sociais. Por falar nisso o Brasil ganhará a copa por pouco, e seremos hexa! Obama, elegantemente diplomático, continuará com a gentil política do morde e assopra. E sim, Hugo Chaves, sua Venezuela e sua sede por protagonismo se autodenominarão, com entusiasmo, eixo do mal. E se finda por aqui as previsões óbvias de 2010, há quem duvide?


PS: Marcos Krackowizer, Keleti Oil on Cavas.

PS2: Para todos os meus visitantes, queridos sempre, um feliz 2010! Ano que vem sejam sempre bem vindo, para prosear e tomar um bom café com sonhos de creme. É um grande segredo pra manter as boas relações. Abraços apertados a todos!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Para Betinha com todo o meu amor


Quando uma avozinha dorme para sempre, ela não trás mais copinho de água, não faz a comida que a gente gosta, não liga mais perguntando onde estamos, e não adianta mais se acordar dia de domingo de seis horas da manhã pra levar ela pra igreja. Porque quando uma avozinha dorme para sempre, ela fica somente nas coisinhas que nos rodeiam... Nessas coisinhas pequenas que a gente nunca se dá conta que quando falta faz uma falta danada. No começo a gente nem percebe, porque o nosso mundinho perde todo o equilíbrio, e a nossa vida fica toda bagunçada. Nos primeiros dias, a gente só percebe que perdeu, pela falta que faz, pelo brilho triste nos olhos do papagaio Lilico, na velha cadeira de balanço vazia, nas lágrimas que a gente derrama. Mas aos pouquinhos, quando a dor vai passando e a gente começa a encontrar na esquina da rua a alegria, aí sim a gente começa a perceber que a avozinha que se foi ainda está com a gente, está nas posições dos móveis, numa velha xícara de café forte, numa caixa de batom que a gente encontra escondida no armário, numa pessoa de coração puro, nas nuvens no céu... Aí a gente percebe que a avozinha vai acompanhar a gente a vida toda, porque a avozinha é ainda uma parte da gente, porque ela nos moldou em suas mãos delicadas. Chora betinha, que hoje a dorzinha ainda te aperta o coração, porque ela ainda não quer ir embora, mas um dia ela vai querer. E tu vai só sorrir...


PS: Lasar Segall, Mãe morta, 1940.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

1- Sofia Bianchi sonha já acordada


Acordou no meio da noite lembrando que sonhou com ele... E as palavras jorraram de sua mente como quando a gente acorda de sono intranqüilo. Ela pensou que se deixasse o seu belo caderno de anotação n. 6 na cabeceira de sua cama poderia registrar todos os seus belos pensamentos. Mas era tão forte a ventania de suas palavras que achou não ser possível registrar o jorro de palavras que lhe invadia a mente quando estava dormindo e acordava no meio da noite, no meio do sonho. Mas era como segurar um castelo de cartas e lembrar das lindas palavras que disse pra ele em sonha que em vida real ela não tinha coragem. E nada disso parecia possível, tudo era tão cansativo, se acordar no meio da noite e escrever coisas de amor. Mas ela ficava parada olhando o quarto iluminado, antes de adormecer e acordar novamente. E acordava todas as vezes que as palavras ditas a ele eram bonitas e singelas que nem pareciam com ela. Mas ela lembrou que se não lembrava das palavras lembrava das cores das cenas no seu sonho de amor. Resolveu o problema sem mais reticências. A moça comprou uma caixa de lápis de cor e pintou em cores as palavras e os sabores de seu amor pelo rapaz lindo do sonho bobo de amor.



PS: Dormeuse, 1943, Balthus. Nascido em Paris, Balthus e sua família foram forçados a abandonar o lar durante as duas grandes guerras mundiais. Nasceu em 1908 e morreu na Suiça em 2001. Na tela acima, uma jovem está sugestivamente deitada perante nós, e desconhece que é alvo da nossa atenção. As cores escuras e sombras pesadas intensificam a presença de um erotismo subjacente. Balthus trabalhava de forma figurativa, numa época em que se considerava isso como uma arte reacionária à própria modernidade. E no entanto, o tema da obra desse autor tem muito a ver a arte radical confrontando-se com a zona proibida e reprimida da consciência. Os temas de Balthus são moderns, desafiantes e quase poderia ser a ilustração dos estudos sobre a sexualidade infantil de Freud, cujas ideias influenciaram a arte no século XX. Convido-os a conhecer a arte de Balthus.

Cartas a um velho amigo


Para Florius


O meu mundo não é igual ao dos outros, eu sei que você diz que o seu também não é... Mas o meu, meu bom amigo, é confuso demais; quero demais, exijo demais; eu tenho sede de vida, sede de infinito, sede de imensidão. Há uma angústia constante que eu não compreendo, sabes que na minha vida nada falta e o que falta sempre chega a mim de uma forma ou de outra, vê estou longe de ser pessimista; sou uma exagerada, exaltada, de alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que deseja o mundo de todas as formas e maneiras. E que tem saudades pequenas, que doem feito beliscão. Tem saudades e não sabe de quê.


PS: Saboriei e fiz bom proveito dos bolinhos que me enviastes, mas lhe imploro, não gaste tanto dinheiro comigo. sei que gostas de mim, mas o senhor não é rico. Apesar de tudo me levantei alegre.


tua amiga


Laura da Hora



PS: Frank Weston Benton.

domingo, 27 de dezembro de 2009

O magnânimo


Porque não me fala do senhor? Não gosta de falar de si mesmo? Pois eu cá, já sou o contrário. De quem poderia falar com tanto entusiasmo prazeroso senão de mim mesmo. Sou vaidoso, e assumo porque nunca tive problemas com a modéstia, à bem da verdade não a possuo. E nem nunca desejei ser tão simplório. Mas reconheço humildemente, meu caro amigo, já o posso considerá-lo assim, sempre fui um poço de vaidades. Eu, eu novamente e eu por fim, esse foi sempre o refrão da minha ilustríssima vida. Só consigo falar vangloriando-me, sim, mas havia todo um jogo cênico, pois também sou ator, e isso se dá maravilhosamente com a minha desfaçatez. Mas sou um homem francamente inteligente, e construo toda a cena com absoluta descrição, cuja verdade só eu possuo. Por que eu vos digo isso? Chega uma época, meu caro amigo, que até homens magnânimos como eu se deprimem, procuro um sentido todo pra esse meu total cinismo, pra esse estúpido e imenso amor próprio. O senhor entende-me não? Não, creio que não. Mas não preciso que me compreendam, talvez isso seja impossível, espero, não, almejo ansiosamente que me escutem o desabafo tardio. Sou um homem sem moral. Digo mais, sou um homem sem caráter. E no entanto isso me parece bastante razoável. Sabe, meu bom amigo, eu sempre me considerei mais inteligente que todo o resto do mundo. Não sorria, eu ainda assim me considero. Só reconheço em mim superioridades, mesmo quando me encontrava diante de algo em que eu não tinha habilidades, ainda assim eu era mediano, e acreditava piamente que se me dedicasse obteria retumbante êxito. Só vivia para alimentar o jogo feroz do eu-eu-eu. Digo, ainda vivo. Mas alguma coisa anda me incomodando. Consciência, o senhor diz, não meu caro amigo, a consciência jamais me pesou, confesso acreditar que na verdade eu não a tenha. Minha vaidade não tem objetivo, o senhor me compreende? É uma vaidade patológica! Eu vivo ainda hoje assim, sempre firme no meu posto, defendendo a minha soberania sempre. E no entanto, percebo que sobrevivo na superfície da vida. Não me compreende... É evidente, se nem mesmo eu me compreendo.


Silencio abissal estabelece-se entre os dois senhores vestidos de preto, sentados na praça do campo das princesas, somente a fonte distinguia o silêncio da música. Passaram-se assim muito tempo até que alguém novamente voltasse a falar.


Já vai? O prazer foi todo meu caríssimo. Meu senhor, posso oferecer-lhe meus préstimos, sem correr o risco de ser inoportuno? Pois sim! Acompanharei o senhor até a ponte. De lá não seguirei mais. Obrigado.


E não seguiu. O senhor magnânimo da ponte quedou-se em 27 de dezembro de 2009.


PS: Desespero de Edward Munch. Uma historiadora de arte identificou a paisagem que inspirou o pintor expressionista norueguês, Edvard Munch(1863-1944) a fazer seu quadro mais famoso, a obra intitulada "O Grito". Segundo Sue Pridaux, trata-se de "Kristiania", atual Oslo, vista de Ekeberg, em cujo asilo psiquiátrico a irmã mais nova de Munch, Laura, foi internada por causa de sua esquizofrenia. O lugar também fica perto do matadouro da cidade, explica a especialista, citada hoje pelo jornalThe Times. Segundo Pridaux, os gritos dos animais no matadouro combinados com os dos loucos no asilo, intensificaram a ansiedade do artista sobre seu próprio estado de saúde. Munch que perdeu a mãe e a irmã mais velha na infância, sofreu com frequentes depressões e crises de alcoolismo. O famoso quadro mostra uma linha diagonal, que segundo se achava, representava uma ponte, mas Pridaux a identificou como sendo um muro de segurança que ainda existe na região. Munch utilizou esse mesmo fundo em suas obras "Desespero" e "Ansiedade".

sábado, 26 de dezembro de 2009

Biblioteca das moças


Nossa coleção é constituída de adoráveis romances vazios que encantam vossas cabecinhas ingênuas e prendem pelo vulgar romantismo burguês.



Oferecemos nas linhas esmeradas aqui escritas ao mesmo tempo às suas leitoras oportuna advertência moral e ricos ensinamentos pelo que encerram de observações sobre a vida e a humanidade.



Não se fala cá de sexo nem de nada que seja indecente para teus ouvidos, querida leitora, não ruborizes! Cá só entra moças!



Nada que aqui leias te fará pensar a ponto de tornar-te questionadora ou crítica. Querida leitora, aqui fala-se apenas sobre o amor. O assunto mais adequado para o belo sexo.



Versa-se, pois, aqui sobre a moral e os bons costumes.



De como uma moça deve se comportar pra conseguir um bom marido, visto que isso é tarefa árdua e concorrida.



Fala-se das mulheres ousadas, de onde não se deve por a mão nem a boca antes do casamento. Porque isso é muito feio, somente as senhoras o podem fazer, pois devem antes de tudo satisfazer vossos maridos, para que não procurem fora o que não tem dentro de sua casa.



Nossas heroínas casadas precisam sempre de luz apagada, porque a nudez do marido pode constrangê-la.



Não Falamos, querida leitora, sobretudo de coisas que vão atormentar vossa airosa cabecinha, como os vitais desequilíbrios sociais, nem sobre as lacunas abissais das convenções pré-estabelecidas. Nem versaremos sobre política, nem investimentos no mercado de commodities.



Haverá somente aqui versos singelos e absolutamente pudicos que é para não poluíres de maldade vossa mente.



Viverá então, querida leitora, sob a égide da boa esposa e boa filha, será uma mulher séria e morrerás oca, talvez infeliz, mas certamente vazia.


A biblioteca das moças é uma das publicações mais fascinantes do mundo, leia-o pois, querida leitora e passe horas deliciosas com essa impressionante literatura.





PS: Mother and daughter, George Goodwin Kilburne, 1890.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Blim blom vai chegar papai Noel



Coloquei meus sapatinhos, já não tão pequenos e mimosos, na janela do jardim, aquela que se abre em sorrisos à figueira e vai estar assim, comovedoramente sorridente quando o senhor se sentar pra descansar no velho balanço de madeira, antes de entregar o meu presente. Meu querido papai Noel, desculpe o sapato que eu deixei na janela, é o meu velho all star surrado que de tanto gostar dele ele ficou assim, caidinho, mas ainda possui muito valor sentimental.


Sabe, a minha cartinha deste ano foi muito difícil de fazer. O que se pede a papai Noel quando já se tem a minha idade? E o que pedir a papai Noel quando a gente é tão feliz e tão exuberante de alegrias? Eu realmente não sei...


Mas por muito tempo eu achei que o senhor não existisse, que ele estava espalhado em tantas coisinhas pequenas que era preciso muito delicadeza pra juntar tudo numa caixinha e encontrá-lo de novo. Eu só queria que o senhor atravessasse o meu jardim e viesse me abraçar. Mas como o senhor não gosta de ser visto, eu juro que mato essa vontade. Sabe, papai Noel, hoje eu acredito que o senhor existe, como também acredito que ninguém é triste, que no mundo há sempre amor e que as nuvens são feitas de algodão doce.

Por isso, quando anoitecer o mundo, e um véu escuro bordado de estrelas encobrirem as casas da minha rua, eu vou estar toda enrolada num lençol que é pra não surpreender o senhor.


E sim, ia-me esquecendo, não precisa me dá um grande presente, porque esse, eu já os tenho ganho sempre todos os dias. Por isso sou sempre escancaradamente feliz, mas se o senhor ainda assim quiser me dar alguma coisa, pode mandar um pouco de gestos singelos e de doçura a minha personalidade, que ainda estou carecendo.


Obrigada

Laura


Ps: Cândido Portinari.

PS2: Ao meus leitores um imenso feliz natal!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

E eu lá não li Maiakowiski


A água da fonte escorria como lágrimas incansadas, indispostas e revoltas. Nunca as ouvi assim. Parecia chuva, não, parecia lamento. Eram os meus olhos tristes de saudades. Engraçado como a saudade sendo sentimento que existe, parece indizível em palavras. Gestos sim, estes a revelam.


Era uma noite quente, luminosa, memorável e guardava seu bocado de tristeza. Mas uma tristeza sem dor, era a tristeza do vazio. Era uma noite de despedida, ao menos era essa a impressão persistente que me acudia.


Imaginei essa noite vestida de tantas roupagens e nenhuma delas correspondeu de fato a nudez causada. A solidão é nua, meus caros. Gostava de pensar que nada lá me bastaria. Nada lá me suplantaria. Nada me escaparia, porque era o meu maior desejo. E desejo sonhado com todo o coração o mundo conspira a favor, ao menos no meu caso, é sempre assim. Desejei tudo lá ser meu, teus livros, discos e rabiscos. E o foi, teu conhecimento de mundo deu a mim essa argamassa na alma minha que tanto admiro. O teu mundo em quatro grandes paredes foi meu. Tudo o que por ali turbilhonou nesse longo tempo foi meu e teu. Em minhas mãos tuas digitais, no coração tua inspiração, na alma o melhor de ti.


Mas hoje, fatídico dia nosso. Ultimo dia nosso, deixo-te para correr mundo, levando em mim o melhor que me deste: espírito refinado! E as tuas amadas, queridas paredes já não são diques para o meu imenso desejo de vida. Deste-me asas e uma noite estrelada. Hoje saio, corro o mundo, e levo-te sempre guardada ao coração, imprimindo em meus versos, refletida nos meus olhos tua fiel companhia. Querida companhia.


Agora te olhando assim, ao me afastar de ti, com grandes esperanças à mão, percebo que as lágrimas incansáveis, indispostas e revoltas caem de meus olhos amendoados e não só de tuas fontes que a mim sempre me pareceram olhos lacrimosos.


Bem vindo ao mundo! O mundo me diz.


PS: Gustav Klimt.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Os desejos de Luisa pra mim...


Era uma vez uma boneca chamada Luisa. Ela mora em cima do meu guarda roupa e anda reclamando do abandono que eu tenho lhe dado. Luisa, pobrezinha, quando chora estica bem a lingua pro lado e lambe as lágrimas manchando-a de tristeza. Pobre Luisinha, era a minha boneca preferida de rosto de porcelana e tem esse nome por causa de Luisa de Tom Jobim. Ela não se conforma por eu não mais brincar com ela, só porque eu já cresci e ela ainda é uma boneca menina.


No dia fatídico da nossa despedida, Luisa desejou que os meus dias fossem sempre lindos, e minhas noites sempre estreladas, o papai do céu das bonecas parece que te escutou Luisa meu bem. E desejou que eu pudesse serenar a minha fronte ao repousar no travesseiro. Desejou que meus amigos fossem fiéis, meu caminho repleto de árvores floridas, sorrisinhos infantis, braços quentes em noites de frio, beijos ternos em dias de sol, almas sensíveis aos meus versos, que ninguém torne meu coração de pedra, nem que me façam perder a singularidade, que os meus amores durassem exatamente o tempo de meu aprendizado e principalmente, que o tempo permita que nos reencontremos em dias de calmaria.


Luisa me desejou tudo o mais que eu não lhe desejei quando a coloquei de volta na caixa. Pobre Luisa!



PS: Dorothea Tanning (1910 - ), pintora e escultora inicialmente simbolista e depois recebe influencias do Surrealismo. Logo depois ela cria o seu próprio estilo, mais prismático e lírico.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Bonança, 2009


Querido Nino


Hoje ao acordar, fiquei um longo tempo no calor dos lençóis, escutando de longe o amanhecer ruir. Os sons íntimos do cotidiano calmo. Canto de canário da terra. Sussurro de criança. Nosso cachorro latindo. Farfalhar de árvores. Ventinho bulindo o mundo. Sol treloso entrando pelos buraquinhos do telhado. Nino, meu bem, a Cléo aqueceu meus pés hoje. Verdade quase incrédula, porque ela anda muito arisca nos últimos dias, mas acho que ela estava com saudades de ti, como eu.

Sabes, te escrevo nessa amorosa melancolia porque hoje relembrei de nós dois. Quando éramos amigos, somente. Nossa imensa capacidade de ternura falava ao silêncio da nossa perfeita intimidade. Nunca havíamos nos beijado, mas nossos pés se esquentavam constrangidos, pelo desejo só do toque. E nossas pernas desejavam o roçar macio da penugem que nos encobria. Restava a imobilidade. Falávamos baixo pela necessidade do rosto próximo. Você lembra Nino? Havia economia nos gestos, timidez mesmo, gagueira infantil de quem deseja falar o evidente. Depois, nos meus cabelos tu me acarinhavas, tua mão já me tateava antes de me ter, havia o medo de ferir no toque, de tua mão forte de homem fez-se a delicadeza de pétala nas pontas dos dedos. E eu lá, parada, na inércia infinita de teus carinhos. Isso valia mais que beijo consentido. É uma expressão de pureza de sentimento. O tempo tudo faz.

Amanheci com a idéia vaga de solidão, que de repente faz-se saudade. E vejo em tudo minhas lágrimas cansadas, teu rosto na sombra, teus olhos na memória e a distância inimiga. Sinto tanto a tua falta.

E para matar a saudade de teus olhos doces ando estudando com afinco o novo pintor que descobri já velho. Chama-se Lasar Segall, e sobretudo, o que há de melhor nele é que sendo russo (a velha paixão nossa) apaixonou-se pelo Brasil, por Tarsila do Amaral e por Drummond e tomou nossa impressionante e colorida forma de pintar. Nino, meu bem, Segall foi a minha maior descoberta este ano, ando encantada com ele. Fiz alguns desenhos dele, olhas e me respondes o que achastes, gosto da tua sinceridade terna, de quem possui a elegância de não saber magoar.

Nino, meu bem, ontem passei a noite escutando o velho disco do Vinícius e a valsa para uma menininha, chorei porque Vinicius me leva sempre às lágrimas. Fiz a broa de milho que você gosta e tomei com café. As férias de verão chegaram e o calor anda insuportável, mas o dia é sempre lindo. Estou começando a gostar dos meus cabelos lisos e fartos, parece que realmente eles foram feitos para mim. Montei nossa árvore de natal, mas os gatos (Vidigal, Bento e Dora) derrubaram. E não vou te contar por carta ainda, tudo o que eu tenho vivido, e o que venho aprendendo, deixo-te a curiosidade que é pra te atormentar e não esqueceres de mim nunca, em nenhum instante. Não te zangues não, meu bem, que sabes que sou ciumenta e boba, e por ti sou uma eterna perdida, pobre de mim.


Tua Laura, esta que sempre te ama.




PS1:Carta, George Goodwin Kilburne, (Grã-Bretanha, 1839 – 1924) pintor de gênero, trbalhando em Londres, especializado em interiors com pessoas. Preferia trabalhar com aquarelas ainda que tenha muitas pinturas a óleo, desenhos a carvão e até mesmo muitas litos. Conhecido pela riqueza de detalhes em suas pinturas, característica que levou da arte da gravura em metal para a pintura. Foi um dos pintores preferidos das classes altas inglesas de quem fazia retratos com delicadeza e cuidado com muita atenção a todos os ricos interiores.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

A felicidade


Esse Ruído de felicidade invisível como som de onda que vai e volta para ser mar imenso apenas. Esse passar de horas lentas e poéticos passos, lassidão infinita dos meus devaneios, foi de sábado este o que restou. Lembrança boa que a gente marca com pedra branca no livro do coração.

Lembrança boa que vem de longe e murmura suavezinha aqui no pé do ouvido meu... De onde chega esse som que canta a juventude calma? De onde surge esse som de violão antigo, dedos calejados e mão de linhas que prenunciam vida longa. Vida longa de tartaruga! 170 é o que o tocador vai viver dedilhando sempre uma tarde em Itapoã.

Dos olhos de Kaline? Que eram doces e tinha brilho de estrela que sonha em ser lua. Tava ela tão feliz, que pra eu vê-la sempre assim, vou prometer que limpo o rio Tietê e os outros restante, acho até que viro ecóloga ambulante.

Ou de Rafinha sorria a tudo e a nada? ele e seus olhos vermelhos de sono de menino bom - Parecia-me contemplação das tardes longas que cativa, sei lá porque, mas cativa.

Quem sabe de Iyalê? Que borboleteava incansada e incansável sempre. Pernas e voz que tateavam por entre nossa alegria boêmia... Toda a gente nota ela, até o mar faz maré cheia pra chegar mais perto dela porque a moça entonteia!

Será que era Dora? A Dora de Vinícios? Rainha do frevo e do maracatu, quase a flor do mandacarú? A Dora querida que eu conheci no Recife de rios e pontes. Dora divide comigo o desejo pelo imenso, pela felicida plena, conquistou-me, sempre.

A Davi, poucas palavras porque me emociona a sua ingenuidade de menino de coração largo. A joão e will, sobra nada não, só uma gentil admiração, por quem diverte sempre pela energia.

Eu me recordo de tudo isso, aqui na varanda de casa. Vendo de longe um tico-tico com uma folhinha seca no bico. E o jasmineiro se florindo, o pé de guaraná de botões vermelhos, e eu aqui só lembrando como foi bom a primeira comemoração das férias de verão.


PS: A dança de Henry Matisse.

Pra você saber que eu também gosto de você



Se sabe?
Não sei...
Só sei que eu sinto por ele o mesmo que ele sente por mim.
Seja lá o que for que ele sinta
Olha-me e olho-te no tempo invariável das horas
Os olhos que me namoram e fogem.
Sabe os outros, que eu sei...
Há no que não se percebe
Um quê de todo mundo que sabe,
Verdade.
Essa eu sei.
Sei que estou gostando de alguém,
E é de você que já é meu bem.



PS1: Love, Gustav Klimt. Ele está irreconhecível nesse rebuscado jogo de luz.

PS2: Não poderia deixar de postar essa poesia de Bilac irreconhecível para quem possui seu estilo puro e sobrio de poeta de hino à bandeira nacional.

Beijo Eterno

Diz tua boca: "Vem!"
"Inda mais!" diz a minha, a soluçar...Exclama
Todo o meu corpo que o teu corpo chama:
"Morde também!"
Ai! morde! que doce é a dor
Que me entra as carnes, e as tortura!
Beija mais! morde mais! que eu morra de ventura,
Morro por teu amor!

Ferve-me o sangue: acalma-o com teu beijo!
Beija-me assim!
O ouvido fecha ao rumor
Do mundo, e beija-me, querida!
Vive só para mim, só para a minha vida,
Só para o meu amor!


PS3: Klimt e Bilac me emudeceram hoje!

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Recadinho ao menino de verde


Por que não troca a estrada?
Poste de luz queimada e esburacada...
Talvez o perfume de outro caminho?
Talvez não seja só ternura de primavera,
Leveza de ar
Sede de vida...
Sei lá,
É só um outro bom dia, moço,
Quem sabe!


PS: Encontro, 1924, de Lasar Segal, e as nítidas influências do modernismo brasileiro.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Minha canção preferida: Caminho proibido


Gosta de correr mundo e correr perigo.
Um dia te chamo pra vir comigo
Sob o sol de janeiro.
É flor com sede de luz da estrela.
Tem minha alegria,
E o meu entusiasmo pela vida
E vem acordando com audácia o amor e a angústia do meu coração: cidade desabitada.
É contagiante e aquece como luz insistente
É meu fechar de olhos. Quase sonho.
À propósito,
Tem me aparecido neles,
Noite passada mesmo, te revi.
Tem uns olhos que eu amo
Olhos que me namoram,
Vê o mesmo que eu vejo?
E teu beijo em sonho
Lembra alegria de acácia florindo
Frio de voo pássaro.
Mas tem laço de fita no pescoço,
Pro meu desgosto
De solidão de espinho.
Uma tormenta de mar sereno,
Um dia barco vira,
Aí quero ver como eu fico!
E sei, foi feito pra mim,
Que eu sei.
Só cheguei em dias de atraso
E ele nem desconfia...



PS: Aldeia Russa, 1912, Lasar Segall. Pintor Russo, naturalizado brasileiro em . Depois de estudos percebo que Segall não cabe em rótulos, não se lhe pode classificar as obras, porque ele escapa à esteriótipos. A arte de Segall é resultado de um processo de complexas sedimentações culturais e por isso mesmo são obras desafiadoras.
Aldei Russa é composta por recortes triangulares, estilhaços de cores assentados numa linha diagonal. É como um quebra cabeça emocional, é o expressionismo de Segal se revelando na sua fase inicial.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Estava no baú das recordações e eu nem sabia...


Eu lembrei de você
E a quantos anos não me recordo de ti com saudades
Hoje que te escrevo
Ela vem com cheiro de alecrim,
Gosto de café com leite e muito açucar,
Música chinfrim
Romance sem flor, sorriso e dor.
Meus olhos amanheceram verdes...
Você amava os meus olhos com a sinceridade que não me amava,
Lembro de você ainda dizendo
Ter que me amar
da noite até o amanhecer convulso,
Que era pra conhecer todas as nuances escondidas dos meus olhos verde-amendoados
Sob as variações da luz do dia.
Eu sorria...
Sabe,
Eu fiquei triste hoje, sei lá...
De uma tristeza longe
Sem dor, sem rancor...
Nunca vamos saber qual seria a cor dos olhos do nosso filho.




PS1: Woman with black cravat, Modigliani. O grande rival de Picasso só pintava os olhos quando conheciam a alma. Ele era aficcionava pela sinceridade dos olhos de sua modelo. Esse quadro representa a sua mulher Jeanne Modigliane, e ele só pintou seus olhos quando já conhecia a sua alma.


PS2: Não sei porque, de você só guardo as lembranças miudinhas.

terça-feira, 10 de novembro de 2009


Glorinha, deitada na grama do laguinho, contemplava, diante de seus olhos, a ondulação das folhas da grama. Engraçado, eram todas idênticas, como um mesmo refrão tedioso repetido inifitas vezes. E eram, a seus olhos voluntariosos, tão indiferentes! Pensei que seria a morte ser asim, tão igual às outras.
Ergueu os olhos para a figueira, ela dominava a paisagem, rompia o céu, inundava o chão com suas raízes. A ela não tinha rival. Glorinha decidiu-se, seria como ela!


PS; In the garden of the villa bellevue. Edouard Manet vai muito alem das estéticas da pintura impressionista, utilizando os jogos de luz de claro e escuro, diferente dos adocicados da época. E pintava mais o realismo-quase-naturalismo seguindo a nova estética literária presente em Zola e em Maupassant. Era criticado pelo estilo de pintura e pelos temas escolhidos. Manet influencia os prercussores do impressionismo.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Carpinteiro, não me corte a figueira....


A árvore da serra


-As árvores, meu filho, não têm alma
E esta me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!
- Meu pai porque sua ira não se acalma?
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?
Deus pôs alma nos cedros... Nos junquilhos...
Esta árvore meu pai, possui minha alma!
- disse - E ajoelhou-se, numa rogativa:
"Não mate a árvore, pai, para que eu viva"
E quando a árvore olhando a patria serra
Caiu aos golpes do machado bronco
O moço triste se abraçou ao tronco.
E nunca mais se levantou da terra.

(Augusto dos anjos)



Um cheiro forte e acre verde derramado
Era a minha figueira prateava que sangrava
Sob as mãos de um machado bronco
E um coração sem pranto
Tombava pouco a pouco sob meus olhos desconsolados
É clarão que entristece
Folha branca sem arabesco
Chão sem folha seca
Que serão das minhas poesias
Se me faltar a figueira um só instante?
Inspiração faz as malas
Viaja pra longe apertadinho...
Leva a sombrinha!
É pra alma que chora.
Pra olhos verdes amendoados
Lágrima é chuva de coração alagado.
Não chora minha figueira!
Tua morte implacável
Dói-me
Como mão grande apertando coração pequeno.
Vai sossegada flor...
Que no céu
Tem um jardim florido,
Uma pequena casa,
Um banquinho
Uma menininha de branco pra te amar
Uma poetinha pra te embalar...
Vai flor,
Que inda agora Deus me confessou!
Mas antes ouve,
Juro-te que vou te encontrar
Vou ser boazinha e me comportar
Vai que é chegada a hora!
Viverei, minha figueira prateada
Do desejo de revê-la
Num mundo em paz
Onde não haja
Coração bronco,
Nem machado tonto.




PS1: Great-pine, Cezanne.

PS2: Para a figueira do meu jardim!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

15 coisinhas à toa que me fazem feliz


1-Um gato se espreguiçando sob um raio de sol.
2- Estourar plástico bolha.
3- Comer sonho de creme com café em dias chuvosos.
4- Almoçar na sala assistindo o fabuloso destino de Amelie Polain.
5- Ler Dostoiévski em dias de desassossego.
6- Ler Dostoiévski em dias de sossego.
7- Um beijo delicado no canto da boca.
8- Sentir a paz de uma criança adormecida em meus braços.
9- Chico Buarque.
10- Maratona Friends.
11- Abraço de mãe.
12- Escrever, escrever, escrever.
13- Acordar com o pé de jasmim-laranja do jardim florido.
14- Assistir o pôr-do-sol da janela do meu quarto, sentindo o vento sereníssimo acariciar meu rosto.
15- Fazer lista de 15 coisinhas à toa que me fazem feliz, porque me deixa feliz.



Meus caros leitores, convido vocês agora mesmo a fazerem uma lista de 15 coisinhas que te fazem feliz. Não se surpreendam se desejarem construir uma lista que vai alêm de 15 coisinhas. Custa tão pouco ser feliz que é impossível não ser feliz o tempo todo.


PS: A bailarina de Anita Mafalti.


terça-feira, 27 de outubro de 2009

Carta aos olhos silenciosos que me namoram...


Há muito não escrevo sobre as impressões do dia, tenho-me resguardado aos sentimentos, mas eles andaram ariscos e me fizeram fazer beicinho nos últimos tempos. Aparta-me deles nesses dias de sossego para escrever-te as singelezas dos dias solitários. Pareço-te austera? Não, a belea dos dias longe de ti bastava-me para restituir a felicidade.

Por vezes, passo a tarde sozinha no jardim florido embriagando-me de leitura, vendo as sombras das árvores alongarem-se e as borboletas voejarem. As vezes eu me desvio e penso em ti.

A minha primeira alegria é ser acordada com um raio de sol a brincar no meu rosto que entra não sei porque fresta da janela. Surpreendida assim, bem cedinho, abro a janela e sinto a friagem do ar enternecer-se sobre a minha pele. A roseira púrpura, a relva orvalhada, o pé de acácias, o jasmineiro branco, a figueira prateada brilham sobre um brilho tão novo e fugaz que me emociona. Eu carrego sozinha a beleza do mundo!

E passo horas sentindo. Sentindo tudo de todas as maneiras. Até que as janelas vão se abrindo de par em par ao odor ensolarado da manhã. Eu já partilhava com esse dia que mal começava para os outros , um longo passado secreto.

Ocupei esses três dias longe de ti embevecida com a belezadeles. Até agora, que te escrevo, as manchas do sol da tarde dançam no meu caderno. Nesse instante, eu penso que cada coisa tem o seu lugar certo, até eu mesma. O perfume de saudade mistura-se ao odor de chá de erva doce que me chega por baforadas da cozinha.u

A noite, as janelas em par ainda abertas, respiro sob a via-láctea o perfume da roseira à espreita das três marias no céu. Deve ser por isso, pra ver esse espetáculo que gosto tanto de atardar-me na janela antes de dormir. gosto de cheirar o sopro do sereno da noite. Nesses dias eu senti saudades, as vezes de teu olhar pesar sobre mim. Teu sorriso encontrar com o meu, como se a gente partilhasse segredos. Nos comunicamos com um olhar, já reparaste? De longe, Monótono, obstinado como um coração pulsando um gafanhoto canta. Penso em ti, nos teus olhos mudos a ver o vento brincar nos meus cabelos. Há um silêncio infinito, dentro do infinito do céu de teu olhar. Estou em paz! Acariciada pela brisa, embriagada por perfumes, embalada por Deus. Tive a sensação de liberdade, essa liberdade que eu encontro em ti. Tu que faz a minha tarde vazia valer um dia.



Deixo-te, pois, um beijo, este que ainda não te dei.


Laura




PS1: Noite estrelada, Van Gogh. Pela conversa entusiasmada ontem a noite com Hítalo sobre o pintor pós-impressionista.


Ps2: Por provocação de quem vos escreve leiam pela segunda vez o texto escutando Come away with me de Norah Jones. Trás boas sensações e a ideia é provocá-las.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Serenidade em dias azuis


Não sei porque, hoje eu estou com a leve sensação de alma em estio de primavera. Como se a borrasca de inverno tivesse deixado o céu para inundar o chão. Era já uma terra molhada espelhando céu azul. Azul que volta pro céu é chuva alegrando o chão. É a sensação de tudo no seu devido lugar novamente. É jardim florido então. É céu na alma e paz no coração.


PS: Paisagem com touro, Tarsila do Amaral.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Livro do desencanto


Escrevo numa segunda, noite baixa, ampla de luz, no sossego de minha rua poética. Penso no que aconteceu esta tarde e no quanto as pessoas mogoam os outros por tão pouco. Penso numa flor, lirio branco e brando. Penso numa mão grande e indelicada. Vejo ela tocar numa flor, não sutilmente, mas por curisidade, como que pra conhecer o sabor de seu toque. Mas por qualquer ponta de pervesidade, movido quase maquinalmente por uma frieza irracional deum instante, essa mão arranca um pedaço desse lírio branco de jardim. Essa mão não sente prazer nisto e não sente culpa qualquer. O lirio branco e brando não lhe culpa. Não há carrascos nem vítimas nesse jardim. E a mão machado bronco segue seu caminho indiferente. E o lirio, ainda que pasmo diante de tanta indelicadeza, continua na sua elegância de infinito. Ela não reage. Ela não chora. Ela não xinga. Ela não despreza. Ela é suave. Ela compreende. Compreende as ofenças que lhe ferem, que machucam suas pétalas voluntáriamente ou não. O lirio branco e brando continua no jardim exprimindo sempre uma grande, uma solene, uma contente felicidade, porque é a essência de sua natureza. Mas sobretudo, o lirio brando possui o que a mão machado bronco não possui, elegância. Uma elegância desobrigada.

Essa elegância não é ensinada nas faculdades, nem se encontra nas poesias, ela é algo que vai muito alêm dos cumprimentos diários e necessários; Bom dia, boa tarde, boa noite, todo mundo sabe falar, até com má vontade. Essa elegância não se encontra no agradecimento de uma gentileza, nem na educação básica que as mães nos ensinam: Não fale de boca cheia! Não faça gestos obscenos! Não arrote! Não solte ventos! Elegância vai muito alêm disso. Ela nasce com a gente, amanhece, anoitece, e aparece nas horas mais prosaicas e improváveis, quando não há ninguem por perto. Só há ela, a elegância dos gestos.

Essa elegância infusa, inconsciente, infensa a testes, incandescente em seu simples manifestar-se, não se encontra em joias, nem em roupas, nem em inteligência, nem em sobrenomes. Encontra-se na generosidade do trato com as pessoas. E isso não há quem ensine, porque é delicadeza natural.

O lirio branco e brando sentiu essa sutil diferença entre ela e o machado bronco naquela tarde. Não havia motivos para ser tratada com tanta grosseria, ela não pedia nada, somente um instante pra falar deles. Mas ela, no seu pasmo assustado diante da mesquinharia dele, preferiu sentir a reagir àquela situação desnecessária. O lirio branco e brando sentia plenamente essa elegância natural naquele momento. E se a sente, é porque verdadeiramente a tem.



Ps:Path Giverny, Monet. Porque é sempre belo e fala ao silêncio.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Memórias do quarto escuro. O diário de tereza, segunda folha...




Na noite em que eu encontrei Helano. Não me lembro de ter visto uma lua tão bonita, redonda, clara e cheia de vida como os olhos de Helano. Era uma conspiração, e hoje disso não duvido. Naquela noite tudo me pareceu brilhante, tudo estava aceso, havia beleza e poeticidade até na sonoridade pungente. Pareço romântica, não? Tequila, fome, carência. Não canso de querer explicar os sentimentos. Senhores, há alguem que não deseje justificá-los ao menos uma vez na vida? Talvez eu seja romântica... Eu era romântica antes de conhecer Helano! Eu fui romântica ao lado de Helano...

Era um bar. Eu, Dulce e Glória acabavamos de chegar, sentamos numa mesa diante da que Helano estava sentado. Bebia vinho, que é a bebida dos apaixonados. Tristão e Isolda bebiam-lhe a última gota pra tornar eterno o amor. Helano escrevia poesias no guardanapo (Me pareceu tão boêmio!) e demonstrava a inconstância e a aura de poeta descrente. Parecia escrever como se as palavras rompesse diques e ele não acompanhasse toda a sua fúria. Helano era um poeta fauvista!

Apaixonei-me por Helano quando ele olhou pra mim. Olhar superficial. Não me considero bonita como Dulce, e nem adorável como Glória, e no entanto, eu provoquei em helano um segundo olhar. Olhar de quem não espera nada, somente para se certificar que não passou desatento. Mas Helano foi incauto, olhou-me a terceira vez. Minha avó dizia, é preciso ter cuidado com as coisas mantidas em sigilo, uma delas é a beleza que triunfava em silêncio. Ela possui qualquer coisa que emudece. Não sei porque eu me lembro disso...

Sucederam-se outros olhares, sorrisos mudos, desejo incontido. Eu desejei Helano naquela noite. Pra me provar mesmo, pelo lascívo poder de provocar a mim mesma. Lancei-me em desafio. Pra sentir de todas as maneiras a minha fraqueza e meu poder de resistência. Nesse embate, claramente perdi. E Helano entrou em mim. Em corpo presente.



Ps: Cupido e Psique, Rodin. A história de Cupido e Psique é uma das mais belas da mitologia, Vênus com ciume de sua beleza obriga Cupido a encontrar um marido bem perverso para psique, mas ele se apaixona por ela. Então ele torna-se seu amante e coloco-a num castelo onde só se encontravam na escuridão. Psique curiosa e movida pela inveja de suas irmãs, certa noite quando Cupido dormia ela acendeu uma lamparina, no entanto, ele acordou. Cupido abandonou-a por que ela não confiava nele. Desde então, psique roda o mundo em missões dadas por Vênus para ter de volta o seu amor. Ela cumpriu todas as terefas exceto a última, que consistia em descer até Hades e trazer o pote de beleza usado por Perséfone, mas ela abriu o pote. Com pena Jupiter perdoou Pisique e o seu casamento com o Deus Cupido. E ela subiu ao céu!

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Balada do amor palhaço...


Tem pão, manteiga e meu coração na mão.
Ninguém sabe por quem se apaixona...
Estórias que nos contam na cama.
Barco e onda
Onda e rota
Ninguém pra nos contar
Por quem se apaixonar.


PS: Músico triste, Cândido Portinari.

Uma maçã, é uma maçã



Eu vi uma pipa amarela no céu
O sol faz arabescos no meu café
Penso em ti...
É tudo tão calmo!
O carro de lixo passa,
Finda-se, pois, a inspiração.



PS: Portinari. Meninos soltando pipas, 1947.

Petit Chanson.


Tô pensando em te inserir na minha viagem, nas minhas imagens, porta-retrato, celular, cartão-postal, fim de ano e natal. A noite a Luxúria e o inferno a dois, banho a dois... amanhece meu sol! A tarde meu certo meu incerto. Café pra dois é sonho a dois. Estou contando aos estranhos que gosto de você. Na fila do banco, do ônibus, em todo os cantos e quinas e esquinas. Parece filme. Novela mexicana?
Ando tentando evitar a tv, você e o jantar.
Ando com vontade de te embrulhar...
De te trazer pro meu lar,
Fazer comidinha,
Sonho sexo e o que mais desejar!



PS: Salvador Dali em sua fase inicial, loge do surrelismo (Pasmem!). No entanto, percebe-se claramente no estilo da pincelada um ar que prê-anuncia salvador Dali na sua forma mais conhecida. Reparem no movimento da cortina! Ele está presente aí!




quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Bonança, 2009


Nino, meu bem

A primavera chegou. Desde 1990 não perdes a chegada da primavera aqui em Bonança. O caminho cheio de flores, a vida calma e suave, há tanta poeticidade meu bem. As mães fortes carregando seus rebentos fortes em banhos de sol primaveris. O nosso pé de jasmim laranja anda tão florido, carregado de flores miudinhas e brancas. Tapete alvo, como tu gosta. As andorinhas passeiam no nosso terraço com tanta elegância como se fossem pequenos franceses, é tão lindo de ver.

Olha Nino tudo aqui me faz lembrar de ti. O cheiro de roupa limpa, que não sei porque sempre me remete a cheiro de lar feliz. O nosso lar é feliz! O guarda chuva quebrado atrás do armário (Você disse que já havia jogado fora!). NOsso estudo sobre Rembrant. Vê são tudo lembranças tuas Nino! Sabes que gosto desse cheiro de época distante que perpetua pelos cantos de nossa casa.

A tua carta última muito me lembrou aquele dia. Em que o sol amanheceu preguiçoso e clareou o dia devagarinho, descobrindo o escuro escondido da noite. E o céu era azul, bem azul, desses em que a gente chora. O pé de acácias do nosso quintal amanheceu douradinho, tapete era chão amarelo. O dia tava tão bonito! Enviado a rua 15, N: 10, Bonança, endereçado à nós. Não ria que eu não brinco, e nem me chames de piegas, sou romântica, Nino, romântica por ti.

Guardei tua carta esperada e tão amorosamente concebida na gaveta da cômoda onde antes estavam tuas meias. Nino, não sabes! Encontrei teu cachecol vermelho! Lembras que tu desejou levar ele pra lembrar das minhas mãos brancas e brandas brincando de tricotar? Tu ainda ficarias feliz de tê-los, não? Mas é com pesar e um tanto de aperto no coração que te digo, o Vidigal encheu de pélo e puxou alguns fios. Tu ainda o queres? Ainda assim, querendo ou não, remeto-o a ti, assim como uma caixinha de biscoito de polvilho que eu espero que o correio não sacoleje muito, ou então vais comer só o polvilho. Repara que não foram as minhas mãos amorosas que o fizeram, mas carregam toda a doçura de um beijo meu.

Fiquei ansiosa por tuas carta que não chegavam. Perdoa-me, mas duvidei do teu amor! Pensei que já não mais me amavas com devoção, pensei que faltava a ti a lembrança minha. Chama-me boba se quiseres, mas não sabia que o correio andava em greve. Pensei que tu e não o ele andava arisco.

Nino meu bem, são tantos os lugares que venho passando e e que tu ainda não conheces, mas estas presente na poesia do movimento, na leveza das folhas secas, no perfume das cores. Mas, sossega, meu bem, que as coisas belas guardo-as para ti quando regressares. Continuo o meu estudo sobre as bailarinas de Degas, embora tenho me apartado delas por um tempo porque me apaixonei por Klimt. Ainda não perdi a mania de te buscar em todos os cantos da casa, e de ainda fazer café pra dois, mas logo isso passa, quando eu me acostumar com tua ausência. Deixo-te um beijo carinhoso nas palavras que te escrevo e me despeço de ti.


Tua Laura,
Esta que sempre te ama.



PS: Valsa de Renoir.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Do amor.


Porque eu não peço nada a mais do que possa dar...
Se eu gosto de você?
E você, gosta de mim?
Você não é gentil! Não me liga no dia seguinte. Não me convida para sair sem segundas intenções. Seu altar já está ocupado. Seu puteiro lotado. E o meu céu tem poesia, os meus olhos mais estrelas. Eu nua sou tua. Eu branca, noite escura, invariavelmente assim. Ele me faz sorrir, me faz delirar, mas não me faz chorar. Se eu gosto da situação? Não tenho respostas. Não amo você! Acho graça. Você sorri. Não vivo no perigoso tripé feminino: Ciumenta, controladora e carente. Talvez se eu te amasse... Mas anda tão ocupado o teu coração, que não tem vaga pra mim. Por que me arriscar? Por que me jogar? Pra que beber lentamente o vinho do amor? Embriagar-me sozinha, sem o êxtase de ver-te ao pé de mim. Não gosto dos amores trágicos. Gosto dos amores possíveis! O meu amor poderia ser teu. O meu desejo poderia ser teu. Mas não és gentil! E no entanto, é facil me perder em ti. E me perder por ti. O teu ar de desencanto, teus traumas, tua aura de poeta distante. Gosto da tua voz. Da tua verdade. De teus olhinhos de maior abandonado. Perto me faz bem, longe me faz falta. Uma garantia? Se tu gostasses de mim... Mas não gosta! Eu não dou mais do que tu podes me dar.



PS: Um Degas, Sempre um Degas...

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Desassossego.


Há dias que uma mulher precisa chorar...

Qualquer coisa de leve mas de tão forte dói...
Um dedo midinho entre os teus.
Amassa com vontade.
Não gosto da política do choramingas...
Não gosto dos pessimistas.

Mas há dias em que uma mulher precisa chorar

Um vazio de canto de sala,
Um cheiro de solidão
Poeira triste acumulada...
Rima pobre sem canção.

É dia de desassossego,
Chega mais perto e sente o despropósito.
Violão sem corda
Eixo sem roda.

Eis que me encontro na trágica pós-modernidade...
Não gosto dos trágicos...
Mas ando pessimista hoje.



PS: Frank Stella, Silkscreen. Pintura Minimalista que é vista como reação ao expressionismo, e surgiu entre as décadas d 1940 a 1950, e essa fase retrata uma aridez geométrica que condiz bastante com o conceito de tempos pós-modernos.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O caminho


De que é feito lágrimas?
Tristeza.
E o sorriso?
De afagos no coração.
E algodão?
De nuvem.
E uma mão?
De dedos.
E o amor?
O amor?
De amor que fica...
Então eu acho que estou triste.



PS: Trilhos de trem (train tracks) de nada mais nada menos que Bob Dylan. A galeria Nacional da Dinamarca informou em 16/09 que irá exibir cerca de 100 trabalhos do cantor. O interesse de Bob Dylan em expor suas obras nessa galeria é porque há nelas expostas várias obras de Henri Matisse, isso porque há no trabalho de Dylan influencias do pintor fauvista.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Sérénité


Se eu descanço? O pensamento? Raramente eu desligo. Não existe off, plano de pouso, nem rede pra repouso. E quando isso acontece? Eu nem mesmo passo uma hora. Acho que eu preciso de ioga. De respostas. Essa eterna busca pelo sentido da vida me cansa. Eu tenho medo de falhar, de transigir regras impostas por mim. Eu não me permito extravagâncias.

Eu pareço louca, meu caros?

Eu odeio essa vigilância interior. E essa minha terrivel mania de me enfrentar. De me buscar e de me descobrir entre uma legião de mim mesma. Como se na verdade eu tivesse a necessidade de saber quem manda mesmo em mim. Quem é a chefe? Qual me destrói? Qual me constrói?




PS: A mulher com sombrinha, de Ernst Ludwig Kirchner. Pintor expressionista alemão e um dos fundadores do grupo expressionista Die Brücke (A ponte) em 1905. Essa pintura possui as características do expressionismo alemão, cores fortes e quentes e traços grossos. O expressionismo alemão retratou uma época confusa que a Alemanhã vivia.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

No divã...



É pra eu começar? Nem sei por onde... Pode ser pelo nome? Meu nome é Laura. Não sei dizer nada sobre mim porque as vezes nem sei quem eu sou. Mas sou diferente das outras mulheres. Não sou chorona, não sou dramática, e não me considero vítima de nada. E também, não gosto da cor rosa e nem de ganhar rosas (Pura falta de criatividade masculina!). Sou mandona, egoísta e teimosa, logo, penso como homem, sou prática como um homem. Sou de uma elegante feminilidade, assim, andando pela rua com tanta graciosidade não há quem não pense que eu não seja tão igual as outras. Eu gosto de lírios!

Tenho cérebro masculino, mas coração de mulher. Sou estrategista, mas choro quando leio Camões. Fico com as pernas trêmulas quando me convidam pra sair. Diante de um homem inteligente, eu falo tudo ao contrário do que penso, mas se eu beber um pouco fortaleço as minhas convicções. E se ele brincar nas minhas orelhas? Eu perco o prumo. E se ele disser que me ama? Se ele disser que me ama... Eu não acredito!

Será que eu sou promíscua? Ou vivo num eterno desalinho e inconstância que eu ainda não aceito que vivo. Eu sou tão metódica!

Então doutora Ana, quando terei alta?



PS: Nudez feminina reclinada no divã. Eugène Delacroix. Louvre, Paris.




quinta-feira, 10 de setembro de 2009


Outra vez mais te revejo
E o coração salta-me ao peito, diante de ti.
Passaste e qualquer coisa tua
desprendeu-se e foi parar em mim,
Que de tão súbito,
Tão inesperado e inusitado
Causou-me uma angústia de mão grande apertando coração pequeno
Uma tristeza danada!
E eu chorei
Chorei por te rever ainda distante de mim.


Ps: Danae, Gustav Klimt. Ando ultimamente maravilhada com Klimt.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

A cerimônia do adeus - A parte que não pertence a Beauvoir


Há coisas tristes que só nos acontecem emvida. Até porque em morte me foge todo o conhecimento dos acontecimentos e acredito que nenhum filósofo do quaternário os tenha encontrado de fato. Deparei-me com a morte duas vezes nesta semana, claro que uso de licença poética, pois, não me apareceu diante aquela figura bizarra do sétimo selo. E nem me chamou ele para de xadrez, o que seria muito estimulante. Há tempos que não me divirto com a arte que Duchamps mais apreciava.

Confesso que não sei lidar com despedidas, e que muitas vezes me perco pensando em que já se foi. Quando um personagem que não é o protagonista, mas que de certa forma tornou a história agradável em amiudados capítulos morre, deixa qualquer coisa de página rasgada, de poesia mal rimada. De uma coisa que foi e não poderia ter ido.

A morte não é uma coisa engraçada. Um vazio nunca mais preenchido, um abraço nunca mais recebido, nem um sorriso transmitido. O não ouvir de tua voz. As lembranças que não mais relembrarei ao teu lado. Meus caros, é uma dor que dilacera! E no entanto é inevitável. E que poder possui essa palavra; inevitável! A morte é inevitável.

Essa semana o meu mundo sofreu duas baixas. metade de mim é racional e pragmática, mas a outra metade é humana, logo, é toda incompletude. E ela sente, sente um infinito de coisas miúdas que acumula de repente no meu coração. Acho que é lágrima represada e sangra agora em palavras. Há dias venho cerrando os olhos amendoados pra não derramar lágrimas indistintas, mas chega o dia da desforra! Eis-me aqui tão humana. Tão sensivel. Tão mulher. Eu tenho medo! Medo da morte, medo de escuro! Assumo as minhas fraquezas e eis que estou desarmada, sem meu escudo racional capitalisticamente indiferente. Sabe o que eu estou pensando? Talvez um abraço agora valha mais que palavras de consolo. As palavras hoje são desassossego pro meu coração. E talvez, eu nem seja tão forte quanto eu havia pensado... Mãe, as mulheres grandes um dia desabam?



PS1: A morte e a vida, Klimt. Gustav Klimt é associado ao simbolismo, destacando-se dentro do movimento da Art Nouveau austriaca e um dos fundadores da Secessão em Viena, movimento que rompia com as tradições da arte acadêmica.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009


E no meio da noite
Quando o frio me alcançar
Teu corpo não estará aqui.
As tuas maõs, teus pélos, teus lábios
A me aquecerem.
Nada de teu corpo gentil!
De ti,
Somente as tuas meias brancas
Me esquentarão.
Sabes meu bem,
Elas perderam o par.
Um sonho de creme só
Uma caneca de café na solidão
A tua já quebrou...
Mesa é pra dois
Valsa pra dois
É par
Par que falta no meu altar
A gangorra é pra dois,
sem ti sou só.
Tu morreu querido e
Deixou desassossego
No quarto nosso de aconchego.
A filha do nosso amor chora por ti.
Recife chora ainda por ti.
Já não lês sentado ao meu lado
Crônicas sobre economia
Tantas conversas
descobertas.
Eramos nós
Jovens,
Espirituosos economistas.
Era você que dizia isso...
Eramos sonhos e futuros planejados
Eu que dizia isso...
Ainda ontem,
Escutei teu sorriso brando,
Senti teu perfume jovem
O fremir de teu andar elegante...
Corri ao quarto nosso pra te descobri aqui,
Não te encontrei...
Eu chorei querido,
Chorei de amor mais que pude.
Daquele amor que falta fala a saudade.
Tu,
Somente tu que não encontro mais em mim.
Eu que sou sempre tua.
Mas me perdoa se eu te aborreço
É a tarde, talvez assim, parada
Que me leva a pensar em ti.
Teu abandono tão suave como a água
A desprender do meu corpo.
Fazem somente dois meses querido...



PS1: Homenagem à Claudia Satie Hamazaki e à Marizan Mariano (In Memória). Dois economistas, dois professores, dois apaixonados que me fizeram amar ainda mais Economia. Fique bem Marizan onde você estiver.


PS2: Idylle, Renoir, porque só ele poderia traduzir em imagem o amor que unia meus professores.